13/12/2016

O Significado da Faixa Preta

Adotada apenas no século XIX como símbolo de maestria nas artes marciais, a faixa preta possui um sentido muito mais complexo do que suspeita o senso comum.

Alguns praticantes de artes marciais treinam por longos anos e alcançam um excelente nível técnico. Seus cinturões ou faixas pretas exibem as marcas que atestam o número de graus ou dan que atingiram e, do ponto de vista físico, sua energia, potencia e agilidade impressionam. Para eles, no entanto, o treino e a técnica vão significar sempre um meio para chegar a um determinado fim, seja a aceitação social, a projeção de uma imagem de poder e sucesso ou a melhoria da autoestima.

Esses praticantes por alguma razão não descobriram ao longo de sua jornada uma joia escondida, que é ao mesmo tempo a “técnica” mais difícil e a que traz maior realização: o entendimento de que a pratica da arte é um fim em si mesmo e seu grande ensinamento é uma unidade dualista (como o tao): a percepção de que somos simultaneamente uma singularidade integrada de corpo mente e espírito e parte de um todo com o qual nos comunicamos. Esse ensinamento se torna objetivo por via da busca continua do conhecimento de si mesmo, do auto melhoramento, que tem como consequência direta o serviço ao mundo.

 Para muitos praticantes essa conversa pode soar como uma bobagem mística vazia e banal, mas ela é a imensa raiz que sustenta o tronco das artes marciais em seu berço, o Oriente. E, embora a faixa preta seja um símbolo tardio, adotado no século XIX e difundido por Jigoro Kano, o sistematizador do judo, é a essa raiz que seu significado remete.

Muitos textos sobre arte marcial registram que a cor preta da faixa reflete a ideia da morte, da escuridão e do desconhecido. Os samurais costumavam usar trajes pretos e o Bushido, seu código moral, tem como eixo principal o destemor à morte. Mas alcançar tal estado só é possível de maneira paradoxal, através do adentramento na vida. A disciplina marcial, o desenvolvimento da percepção da energia (chi, ou ki) e a meditação, repetidas diligentemente por um praticante sério permitem que ele se torne cada vez mais desperto, atento ao instante e a todas as suas possibilidades, mergulhado na vida.

Essa atitude diante da morte guarda também uma relação com o conceito budista de Ku, tradução do sânscrito sunyata, que significa o vazio. Ku reflete a ideia de relatividade da existência, da causalidade e da interdependência de todas as criaturas na – e com – a natureza. Assim, no caminho dos guerreiros, o destemor à morte se tornava também amor à vida, à sua riqueza e beleza escondidas que se mostram não apenas no perfeito, mas também no imperfeito, no falho e no inacabado – espelhos do homem.

Hoje, o dojo não é um espaço de preparação para a guerra, mas o seu sentido profundo e espiritual pouco mudou. Antes de qualquer coisa, o tatame traz para aqueles que o abordam com coragem a humildade. A coragem aqui não é a bravura beligerante que nos dispõe a atacar e a ser atacado; a batalha é travada em nosso interior. A prática da arte marcial desconstrói nossa autoimagem, formada pelos outros e por nós mesmos para nos proteger ao longo da vida, e nos livra dos condicionamentos. E, na maioria das vezes, a imagem que se reflete nos espelhos do dojo e nos olhos de nossos professores e companheiros de treino não é a que gostaríamos de ver.

Lidar com a quebra de expectativas – a nossa e a dos outros -, com a frustração e a aceitação de que somos imperfeitos e limitados é o primeiro ensinamento. Depois vem outro mais duro: criar intimidade com um estranho esquecido: nós mesmos. Muitas vezes ao ser arremessada no tatame a “persona” cuidadosamente construída do adulto firme e seguro dá lugar ao menino humilhado e magoado derrubado pelos colegas no recreio. Ou o cidadão tolerante e compassivo vê-se subitamente tomado de uma ira primal ao ser atingido por um chute e arremete com violência.

Meus mestres costumam dizer que uma das maneiras mais rápidas de conhecer o temperamento de um aluno, ou seus traços mais marcantes no enfrentamento da vida, é observar como ele luta. Quando o praticante se prepara para um combate se apresenta sem a fantasia diária. O dojo é uma espécie de mundo alternativo. Lá não existem, ou não deveriam existir, as distinções padronizadas do mundo comum, o homem ou a mulher bem sucedidos, o perdedor, o feio, o galã, e muitas as outras, mais sutis e menos aparentes.

No local de treino todos são iguais em suas diferenças e estão profundamente solitários em seu combate, sem a proteção do cargo, da família, dos amigos, do sucesso e mesmo do fracasso do outro lado da porta. A beleza de um dojo está no sentido de pertencimento que une pessoas que têm em comum a experiência de saber o que significa estar sozinho consigo mesmo em uma situação limite na qual só se pode contar consigo próprio.

A luta é a síntese da arte marcial. Todo o trabalho físico de fortalecimento e condicionamento, de técnicas, formas com armas e de mãos de um estilo e o treinamento da mente e da respiração estão à serviço do combate. Isso não significa que a natureza da arte não possa ser revelada e praticada em um treino de forma (kati ou kata em japonês); a intenção está presente em tudo. Mas no combate o praticante põe à prova a sua própria natureza de maneira radical – e isso não está ligado a uma virtual agressividade. Conseguir em um treino duro, após a repetição de vários katis, manter a concentração e a energia graças à força de sua intenção é desafiador; fazer isso diante de um adversário que muitas vezes é superior a você é duas vezes mais difícil. Na luta lidamos com os dois lados da moeda: a vitória e a derrota e aprendemos a “deixar passar” ambas. Assim como no zazen, o combate também deve ser mushotoku, esforço permanente sem finalidade e sem proveito.

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