16/10/2013

Foque sua mente de macaco (parte 3) / Focus your monkey mind (part 3)


As artes marciais são um dos caminhos que levam a isso. Quando se entra no dojo, temos de realizar uma série de atos ritualísticos (cumprimentar a foto do Ueshiba, o sensei e aquele que está guiando o aquecimento, no caso de se chegar atrasado). Um japonês diria, ainda, que a prática da arte marcial começa antes mesmo de se pisar no tatame. É do lado de fora, quando tiramos nossos calçados. O modo como nos posicionamos revela o estado da nossa mente. Se estiverem todos desordenados, é como nossa mente estará.


Durante a execução das técnicas, a atenção também deve ser mantida. Se tomarmos o aikido como referência, isto deve ser feito de forma ainda mais acurada. A complexidade da arte fica evidente na sutileza e simultânea precisão de cada técnica. É tudo muito leve, mas também muito poderoso se feito de maneira correta. E a maneira mais correta de fazer é esta, focado, atentamente. Cada posição que o corpo assume, cada modificação que isso causa no corpo daquele que recebe o golpe (uke).

Mestre Takamatsu

Se fôssemos japoneses, acrescentaríamos algo: não falar. Uma das peculiaridades da didática nipônica é que devemos aprender a técnica sendo uke, enquanto o tori está executando-a. Morihei Ueshiba, fundador do aikido, ensinava assim. Grandes ícones de outras artes marciais como Takamatsu Toshitsugu, mestre de ninjutsu, aprenderam tudo o que sabiam assim também. Este último diz que ficou por anos sendo jogado de um lado por outro por seu mestre. Tudo o que ele fazia era isso, além de falar pouco durante as aulas, saindo de sua boca somente esporros e exortações à disciplina. Isso facilitava à emergência dessa capacidade de penetrar no agora. E mais importante, - para aqueles que não querem apenas desenvolver isso, mas também as propriedades do despertar típicas da prática budista– não falar nos mantém longe do simulacro dualista da realidade à qual estamos mergulhados desde que nascemos e aprendemos a categorizar as coisas, o que causa a maioria dos problemas em nossa vida.



Outro ponto válido estimulado pela prática do aikido é a respiração. Respirar todos nós conseguimos, mas respirar corretamente é uma raridade. Na maioria das vezes, interrompemos nossa respiração normal e a prendemos sem nem mesmo perceber. 


Mestre Ueshiba

Desenvolvendo a atenção plena como descrevi antes, com pouco tempo de prática, nos tornamos capazes de perceber que ao acessar nosso e-mail interrompemos o inspirar e expirar. Podemos chamar isso informalmente de "apneia por e-mail". E como toda apneia, provavelmente ela traz malefícios.



Na prática da arte marcial, se quisermos fazer direito, temos que saber a hora certa de puxar o ar para dentro e de expirá-lo. Isso tem que ser feito levando-se em conta toda a movimentação que se está fazendo. Quando for esquivar, quando for dar um kime, tudo isso deve se feito em conjunto com o ato de respirar.



“Todas essas coisas, o arco, a flecha, o alvo e eu estamos enredados de tal maneira que não consigo separá-las. E até o desejo de fazê-lo desapareceu. Porque, quando seguro o arco e disparo, tudo fica tão claro, tão unívoco, tão ridiculamente simples.” ~ Eugen Herrigel em A arte cavalheiresca do arqueiro zen.

Leia os posts anteriores aqui:

13/10/2013

Código Samurai (Samurai Code)

"When a samurai says he will do something, it is as if he had. Nothing on this earth will stop you in achieving what you said you will do."

11/10/2013

The Way of Shokunin: Excellence Through Repetition


Como este senhor de 85 anos, com um restaurante com capacidade para apenas dez pessoas no subsolo de um hotel em Tóquio, com banheiro fora do estabelecimento, conseguiu três estrelas do Guia Michelin, numa escala até três, em que as três estrelas correspondem à viagem ao país apenas para a refeição no estabelecimento? Resposta no vídeo abaixo: 


Jiro Ono, considerado melhor sushiman do mundo é diligente e humilde. Conta que certa vez recebeu uma honraria do Imperador japonês e à noite foi trabalhar. Apesar de atingir um nível refinado em sua arte insiste em dizer que sua técnica pode melhorar, e caso tivesse o paladar e o olfato do chef francês Joël Robuchon, que lhe entregou o diploma da Michelin, seu trabalho seria melhor ainda, pois o olfato e o paladar do mesmo é tão sensível que está em outro nível. Costuma receber os louros pela refeição que serve mas reconhece o trabalho dos seus subordinados afirmando que o resultado chega a tal patamar devido o trabalho dos mesmos.



Jiro está sempre tentando melhorar. Atento aos detalhes, muda a maneira de servir a refeição de acordo como cliente: ele presta atenção e percebendo se o cliente é canhoto ou destro, serve a refeição pelo lado mais simples de comer. Também fica atento à disposição dos clientes nas cadeiras seguindo a tradição japonesa e respeitando a ordem das reservas. Seu cuidado vai além das técnicas desenvolvidas para adaptar o preparo e maximizar o sabor. Cria todo menu do dia de acordo com seus melhores ingredientes disponíveis e repete as mesmas técnicas diariamente e de forma ininterrupta seguindo a tradição shokunin de excelência gradativa através da repetição.



legendas disponíveis  / subtitles available in several languages

fonte: youtube.com


Abstract: Jiro Ono, considered the world's best sushiman in restaurant with capacity for only ten people in the basement of a hotel in Tokyo , with bathroom outside the establishment , earned three Michelin stars on a scale of three, in which the three stars correspond to the trip to the country only for the meal at the restaurant.



Despite achieving such a high level in his art, Jiro is diligent and humble. Careful to details, changes the way of serving the meal according to the customer, making the experience full and easier. His care goes beyond the techniques developed to adapt the preparation and maximize flavor. Creates the entire menu of the day according to their best ingredients available and repeats the same techniques daily and continuously following the shokunin tradition of gradual excellence through repetition. Definitely an example of diligence and humility.

References : Aikido Yoshinkan





Começo as referências indicando um livro de Robert Twigger com o título "Angry White Pyjamas", ou "Pijamas Brancos Furiosos". Apesar de seu título sugerir outras interpretações, o livro é uma autobiografia do escritor sobre o período de um ano em que ficou em Tóquio e decidiu junto com dois amigos acabar com o sedentarismo através do Curso Senshusei de Aikido Yoshinkan, um programa intensivo de onze meses. O curso é de quatro horas diárias, cinco dias por semana e foi criado por Gozo Shioda Sensei, 10º Dan em 1957, primariamente para treinamento exclusivo do Batalhão de Choque da Polícia Japonesa e na década de oitenta o curso foi direcionado para civis. Estudantes estrangeiros que desejavam se tornar instrutores de Aikido foram aceitos a partir de 1991.

Destaque para as participações do supracitado Gozo Shioda Sensei e Robert Mustard, 7º Dan e instrutor chefe estrangeiro. Destaque também para as chamadas "Sessões Hajime", onde uma técnica é repetida sem parar por meia hora ou mais. 

O livro está no idioma inglês apenas.

Fonte: wikipedia

07/10/2013

Foque sua mente de macaco (parte 2) / Focus your monkey mind (part 2)


Os rituais são muitas vezes subestimados pela cultura ocidental. Podem ser considerados elementos estritamente religiosos (o que desagrada a quem não tem uma ou a quem é adepto de religião contrária ao ritual proposto) ou protocolo sem sentido, mero “enchimento de lingüiça”. Essas práticas planejadas estão presentes em nosso dia-a-dia mais do que pensamos. Da cerveja às sextas-feiras depois do trabalho ao futebol dos domingos, tudo isso se praticado freqüentemente vira ritual, por mais laico que seja. E tudo que é ritualizado é também um hábito que pode transbordar para outras esferas da vida.

É o caso da etiqueta japonesa, extremamente rigorosa para nós ocidentais. Mas não julgue como fúteis essas práticas, elas tem um propósito teórico que pode ser belamente funcional. É o caso do cultivo da perfeição em cada simples atividade cotidiana, por intermédio da prática da atenção.

‘Drink your tea slowly and reverently, as if it is the axis on which the world earth revolves – slowly, evenly, without rushing toward the future. Live the actual moment.’ ~Thich Nhat Hanh 

‘Walk as if you are kissing the Earth with your feet.’ ~Thich Nhat Hahn 

Para a mente bem treinada, tomar chá, caminhar e lavar o carro podem ser atividades que nos despertam, que nos dão a oportunidade de ver onde nossa mente está.

Parte 1


24/09/2013

21/09/2013

Foque sua mente de macaco (parte 1)



Geralmente, um cidadão médio hoje tem seu dia-a-dia repleto de tarefas. Faz faculdade, trabalha, matricula-se em algum curso de línguas, tem que cuidar do filho, fazer uma presença nas “sociais” com amigos e família, e ainda tenta se desdobrar para ter poucos minutos de prazer vendo um filme, lendo, escrevendo ou praticando algum esporte como hobby. Esse é o mínimo, e aprendemos a ter essa rotina bagunçada desde pequenos.

Se observarmos bem a nós mesmos, nossa mente também é assim. Nossa mente de macaco, como diria Suzuki Roshi:
...."quando você não acredita no significado da prática que está fazendo neste momento, nada pode ser feito. Está às voltas com o objetivo, com a sua mente de macaco. Está sempre procurando por algo sem saber o que está fazendo. Se você quer ver uma coisa, deve abrir os olhos."... ~Texto de Shunryu Suzuki, extraído do livro "Mente Zen, Mente de Principiante"
A nossa mente nunca fica parada, sempre está procurando algo para perscrutar. É como se fosse um esquilo ou um cão, permanentemente farejando tudo à volta.

Isso é lamentável, pois funcionando dessa forma estamos boicotando nossa própria capacidade de aproveitar os momentos, de estarmos presentes verdadeiramente. Pode parecer besteira, mas a atenção plena aplicada a cada coisa que fazemos é importantíssima. E existem formas de cultivar isso.

Toda a cultura japonesa, com todo seu minimalismo e ênfase aos detalhes, é um solo fértil para o desenvolvimento dessas faculdades. As artes marciais japonesas assimilaram todo esse costume, ajudando a formar – e sendo influenciado pelo já existente – todo o corpo de práticas no sentido de nos fazer valorizar cada segundo – afinal, para um samurai, um milésimo de segundo era o suficiente para ser cortado por uma afiada katana.