As artes marciais são um dos
caminhos que levam a isso. Quando se entra no dojo, temos de realizar uma série
de atos ritualísticos (cumprimentar a foto do Ueshiba, o sensei e aquele que
está guiando o aquecimento, no caso de se chegar atrasado). Um japonês diria,
ainda, que a prática da arte marcial começa antes mesmo de se pisar no tatame.
É do lado de fora, quando tiramos nossos calçados. O modo como nos posicionamos
revela o estado da nossa mente. Se estiverem todos desordenados, é como nossa
mente estará.
Durante a execução das técnicas, a atenção também deve
ser mantida. Se tomarmos o aikido como referência, isto deve ser feito de forma
ainda mais acurada. A complexidade da arte fica evidente na sutileza e
simultânea precisão de cada técnica. É tudo muito leve, mas também muito
poderoso se feito de maneira correta. E a maneira mais correta de fazer é esta,
focado, atentamente. Cada posição que o corpo assume, cada modificação que isso
causa no corpo daquele que recebe o golpe (uke).
| Mestre Takamatsu |
Se fôssemos japoneses,
acrescentaríamos algo: não falar. Uma das peculiaridades da
didática nipônica é que devemos aprender a técnica sendo uke,
enquanto o tori está executando-a. Morihei Ueshiba, fundador
do aikido, ensinava assim. Grandes ícones de outras artes marciais como Takamatsu Toshitsugu, mestre de ninjutsu,
aprenderam tudo o que sabiam assim também. Este último diz que ficou por anos
sendo jogado de um lado por outro por seu mestre. Tudo o que ele fazia era isso,
além de falar pouco durante as aulas, saindo de sua boca somente esporros e
exortações à disciplina. Isso facilitava à emergência dessa capacidade de
penetrar no agora. E mais importante, - para
aqueles que não querem apenas desenvolver isso, mas também as propriedades do
despertar típicas da prática budista– não falar nos mantém longe do
simulacro dualista da realidade à qual estamos mergulhados desde que nascemos e
aprendemos a categorizar as coisas, o que causa a maioria dos problemas em
nossa vida.
Outro ponto válido estimulado
pela prática do aikido é a respiração. Respirar todos nós
conseguimos, mas respirar corretamente é uma raridade. Na maioria das vezes,
interrompemos nossa respiração normal e a prendemos sem nem mesmo
perceber.
| Mestre Ueshiba |
Desenvolvendo a atenção plena
como descrevi antes, com pouco tempo de prática, nos tornamos capazes de
perceber que ao acessar nosso e-mail
interrompemos o inspirar e expirar. Podemos chamar isso informalmente
de "apneia por e-mail". E como toda apneia, provavelmente ela traz
malefícios.
Na prática da arte marcial, se
quisermos fazer direito, temos que saber a hora certa de puxar o ar para dentro
e de expirá-lo. Isso tem que ser feito levando-se em conta toda a movimentação
que se está fazendo. Quando for esquivar, quando for dar um kime,
tudo isso deve se feito em conjunto com o ato de respirar.
“Todas essas coisas, o
arco, a flecha, o alvo e eu estamos enredados de tal maneira que não consigo
separá-las. E até o desejo de fazê-lo desapareceu. Porque, quando seguro o
arco e disparo, tudo fica tão claro, tão unívoco, tão ridiculamente
simples.” ~ Eugen Herrigel em A
arte cavalheiresca do arqueiro zen.
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